quarta-feira, 17 de maio de 2017

O Coração do Solitário

Esses dias estava pensando nos meus sofrimentos amorosos, talvez por não ter mais muitas outras coisas para com as quais sofrer (sem menosprezar o meu modo de existência, mas para trazer a clareza da consciência dos fatos) as minhas relações amorosas sempre foram motivo dos meus mais profundos pesares. Não porque não deram certo, mas por não ter dado nem o minimamente certo para poder usar ao menos o clássico clichê “foi bom enquanto durou” ou ainda “teve seus bons e maus momentos”... Não, sendo bem sincera, minhas relações afetivas só funcionaram bem em um lugar: minha mente; até porque uma parte considerável delas (tive mais paixões platônicas do que as efetivadas) nem sequer chegaram a se concretizar em algum outro lugar além da minha cabeça. 
E hoje me peguei mais uma vez chorando por causa delas, ou melhor, pela ausência delas. É... sempre foi um tanto quanto difícil admitir que me sinto sozinha (fui educada para ser bem independente), ou melhor, que me sinto mal por estar sozinha, não digo sozinha de relações afetivas, tenho vários amigos confiáveis e leais por hoje em Floripa, finalmente, afinal, passei meu primeiro ano nessa ilha totalmente desolada por não firmar nenhuma amizade contundente, por consequência adquiri um péssimo hábito: me empantuchar de doces, e olha que nunca fui muito fã dos doces, e agora, que me sinto suficientemente bem amada pelos queridos amigos, a ponto de estar há mais de uma semana sem doces nem glúten, me bate essa, de estar mal por estar solitária no sentido conjugal da coisa.
Me chegou de novo a velha depressiva, que maldiz os ocorridos e o suposto “azar” do como diria Dominguinhos “Quem eu quero não me quer mas quem me quer também não quero”; só que diferentemente das outras, dessa vez pude observar e ver bem o que se passava, afinal, estar completamente só há mais de um ano teria de servir para pelo menos eu entender o que se passa quando o incomodo por viver só, bate. Olhei bem e vi... vi bem de pertinho o que me afligia e me deparei logo de cara com o clichê de que quando se está bem contigo a melhor companhia aparece em melhor hora... Oi?! Quem disse isso?! Alguém que acha que todas as pessoas no mundo contemporâneo são auto-depressiativas, com baixa auto-estima, prestes a se jogarem da ponte na primeira chamada de nova novela das seis?! Que me desculpem os consumidores de auto-ajuda, mas tem coisa falha aí. Não sigo esse padrão, sou bem arrogante, não me acho, me tenho certeza e guardo uma profunda confiança nas minhas qualidades, não apenas me amo, como sou profundamente encantada pelo meu ser (tentando entender aquele que disse que para ser amado é preciso se amar primeiro, mas véi... eu me amo por demais!!!) e nem por isso me colocava numa posição superior aos meus pares, sempre os admirava profundamente pelas suas qualidades e não entendia porque não havia essa recíproca de atenção, admiração e cuidado. Por que? Afinal “O Segredo” não era só vibrar e mentalizar que o Universo se encarregaria de colocar aquilo que estava na sua vibração na ponta do seu nariz?!

Bem, passei umas horinhas elucubrando esses fatos, choramingando e esconjurando todos os Best Sellers de auto-ajuda e depois de xingar muito os deterministas do Think Positive que esqueceram das exceções, de maldizer o destino e principalmente atacar minha incapacidade de fazer algo efetivo a respeito desse suposto “fracasso emocional”, parei e observei: “o que mais me incomodava nesses idos relacionamentos, ou até mesmo nos imaginários relacionamentos?”, definitivamente um deles era o fato deles não terem “durado o tempo bastante para se tornarem inesquecíveis” ou simplesmente nem terem chegado a se concretizar de fato, ou ainda e o pior e mais doloroso eu nunca ter me sentido realmente amada. A sensação que mais me corria o peito era a de me doar total e por completo a pessoas que me viam como alguém para satisfazer desejos passageiros, ou para preencher algo que faltava, ou simplesmente para se sentirem amados, mas nunca para compartilhar Amor, isso me deixava o vazio, a vontade de chorar e pior ainda era quando eu me lembrava daqueles que nem ao menos queriam receber aquele amor. Não sei ao certo por quanto tempo fiquei a lamentar os fatos, mas sei que parou no momento exato em que percebi o bem que todas as pessoas pelas quais eu me encantei e me encanto fazem por mim; porque eu percebi que muito do que me tornei hoje, que acho bom, que admiro, foi por reconhecer o lado bom e as qualidades dessas pessoas, por admirá-las, acabei por incorporar um tanto dessa boniteza que elas tinham pra elas em minha vida, e por fim, percebi, que o melhor que elas fizeram foi serem espelhos, para que eu pudesse enxergar o belo e o melhor que poderia sair de dentro de mim.


Divagações Afetivas

Olá, nessas próximas linhas eu vou escrever sobre Amor, não sobre amor, ou AMOR, é sobre o Amor mesmo, esse com o “A” maiúsculo alegorizante, ou seja, o Amor dos poetas, esse amor que se confunde com êxtase, com paixão, que dói, dá embrulho no estômago e que faz você pensar que é bipolar, depressivo, tem transtorno bipolar ou é esquizofrênico. Esse amorzinho clichê mesmo, que passa nas comédias românticas, nas novelas, nas trovas de amor e de amigo, nos romances de Castro Alves, nos contos de Vinícius de Moraes, nas canções do Clube da Esquina, nos filmes de drama e de comédia romântica.
            Então “mon ami”, AVISO IMPORTANTE, se você está nessa de negação das influências que a cultura pequeno-burguesa-judaico-cristã-ocidental possa ter na sua vida em termos de Amor, melhor nem começar a ler... Se você tá nessa de amor livre, de desapego, de não criar expectativas, de super empoderamento de si, de curtir o momento, de precisar estar com alguém sempre a todo momento (ou quiçá alguéns?!), de desconstruir padrões socialmente impostos de “amor”, de achar que nova MPB (com arranjo de banjo) é uma merda, que não aguenta mais sessão da tarde e que vinho com lareira em Urubici ao som de Billie Hollyday é piegas demais, queride, melhor parar por aqui, porque o que eu vou falar é justamente sobre esse “monstro” criado pela sociedade burguesa, o tão temido “amor romântico”, haaa... e não pense que será em tom de crítica, mas... de profunda empatia e compreensão por ele, até porque, habitantes desse lado do meridiano de Greenwich, eu, como vocês também fui “construída nessas bases”.
            Nesses últimos tempos tenho sido questionada (e muito) sobre não estar em uma relação há tempos, aliás, por não estar em nenhum tipo de relação. As pessoas me perguntam que como, em um lugar com tantas possibilidades de encontros, com tanta gente bonita, com tantas propostas, tanto flerte, tanta gente interessante interessada, tanto de tudo dentro desta esfera eu optei por estar... digamos: celibatária.
            Não, não é falta de libido; também não é por não desenvolver uma relação empática de amor (fraterno) pelas pessoas interessantes interessadas; muito menos por não querer estar com alguém. Eu quero estar com alguém, mas o grande problema é que faço a linha romântica devotada incorrigível, o bom é que, pelo menos agora, saber disso e ser assim não me faz mais sofrer.
            Estar solteira e sozinha por opção tem lá suas razões e talvez isso ajude a entender a natureza dos românticos, ou das pessoas que não necessariamente acreditem em alma gêmea, mas que querem estar por completo com alguém (e isso inclui devotar sua arte e seu modo de criação também e principalmente com aquele com quem se está junto), românticos amam profundamente as formas de existência e por conseguinte querem partilhar esse brilho que enxerga em todas as coisas com o ser amado e logo, o romântico também gostaria que esse encantamento fosse não só visto, mas também sentido, a grande busca do romântico por consequência é partilhar as suas buscas, dividir seus encantamentos com aquele que também se encante. A questão é que o romântico busca isso no outro também e na grande maioria das vezes ele não encontra e então, por consequência, ele se frustra. O romântico consegue superar essa forma de ação auto-destrutiva quando ele aceita a sua natureza e ao mesmo tempo ele aceita o tempo da espera, da chegada, quando o ato de auto-indulgência do romântico se converte em um ato de fé.

            Assim, ser romântico pode também ser leve, e (por quê não?) possível nesses tempos “líquidos”, se transformarmos nossos desesperos e quereres em aceitação (aceitação de que pode doer, criar expectativas, apegos e frustrações; mas que isso também vai passar) e a nossa vontade em fé, amando muito aquilo que se é.


Refúgio

Se eu pudesse vos dizer algo, seria que eu “com-paixono” das vossas dores. Não sei a profundidade delas, não sei nem precisar a exatidão delas, mas com-paixão em meu coração por vós, eu sinto e sei com todo o meu amor, o que eu queria e o que não queria.
Eu não quero, nem se quer pensar, que eu poderia nunca mais ver os meus pais, não porque eles estão gravemente doentes, ou porque as intercorrências do destino pode determinar qualquer coisa inimaginável para o amanhã, mas simplesmente porque tudo o que está ao redor deles, relacionado à eles e consequentemente à todas as minhas origens estão sendo completamente pulverizadas. Todos os meus vestígios históricos, culturais, sociais e ancestrais estão se apagando por completo. Eu não tenho a opção de, num esforço contemporâneo “new age”, “neo hippie”, daquele que se sente consumido pelo consumo, “desapegar”, já que tudo aquilo que constitui enquanto mundo e vida, está despegando de mim, não porque eu queira, não porque o mundo queira, mas porque alguns, creem que tem algo que eles queiram, e se eles querem eles podem controlar o êxito de suas vontades, nem que elas destruam aqueles que só queriam, apenas estar.
Eu quero fazer trilhas pelas florestas colombianas; nadar e navegar pelas águas do Rio Congo e jogar seus diamantes como pedras de brincar; eu quero recitar poesias em um sarau na Apameia; escalar e caminhar o Himalaia por toda a sua extensão; poder dizer que hoje, por mais um dia, fui o primeiro a ver o Sol se por no Mediterrâneo; eu quero rezar ao redor fogo com a minha lá na aldeia, no meio da mata, sabendo que amanhã vai ter peixe e vai ter milho, pra festejar; quero lágrimas de alegria por mais um novo dia e de dor, só se for por dedão ralado ou outro amor frustrado. Mas, se nada disso, mais eu puder ter, que pelo menos, depois desse tornado, eu possa pelo menos ter, a terra em minhas mãos, lavada e purificada, na certeza do coração de que todos que pisam nela, são profunda e verdadeiramente, meus irmãos!


“Para todos aqueles que, sem nenhuma vontade, são obrigados a deixar suas terras”


terça-feira, 16 de maio de 2017

Saudades

Sinto saudades suas
Não digo que “miss you”
Nem que tu “me manqué”
Só a alma da letra lusitana
Pra traduzir em cordas de lira
Um sentimento que vaza pelas palavras
E tão pouco clama pela presença

Na latência da falta
Saudades é sentido de existência
Sente sem apelos e agrega
Em órbita de emoções
O que vem no fluir dos ventos
Não tem tempo
Escolhe seu próprio momento
No fluir dos sentimentos
Se manifesta em passado, futuro e presente

Saudade não se importa com a crença
Das almas, das relações, dos ímpetos,
Das validações coloridas em bandeirolas nos estádios
Não nos traz a sentença de pertença
Não vira bicho
Não pede, não ruge, não uiva
Não canta
Nem sequer dança
Não bate tambor pro fogo

Saudade repousa serena em nosso peito

Pois é o próprio pulsar do fogo de nossos corações


sexta-feira, 30 de setembro de 2016

A Bruxa da Floresta

“É sempre ‘Eu, Eu, Eu’? Quanto egocentrismo!”
Não é que seja sempre o mesmo bom e velho egocentrismo, é que infelizmente não existe outro modo de ver que não seja a partir da nossa própria perspectiva. É isso que eu tenho aprendido com a antropologia. Não... não é que antropologia pretenda ser assim, inserida! Nem de longe! Ela está me ensinando isso não pelo o que ela fala mas pelo o que ela não diz e principalmente pelo o que ela se diz não ser e das ações que ela julga não ter.
A antropologia tem me mostrado, através desse pretensioso, arrogante e prepotente princípio de distanciamento, isenção e cientificismo que, nada, nenhuma análise, nenhum discurso, nenhuma etnografia, nem releitura é isenta. E acho (só acho mesmo)  que eu estou quase conseguindo entender o Clifford (o James Clifford, não o Clifford Geertz), estou quase entendendo, que ele também via isso, mas não escreveu as claras assim, porque, simplesmente faltou-lhe coragem. Logo, ele fez páginas e mais páginas de discurso acadêmico rebuscado e sobre o que ele queria dizer e não disse. Mas claro... isso é só uma suposição, que, como já coloquei antes, a partir da minha perspectiva.
E dentro dessas perspectivas do Eu, vejo que sempre foi só e somente eu. Sou só. Sou meu próprio professor, minha faxineira, jardineira, cozinheira, a que me consola e que me dá alento, sempre fui meu próprio homem, para todas as situações em que quiçá, porventura eu pudesse precisar de um; meu próprio padre confessor e minha própria bruxa; minha xamã e minha macumbeira; minha médica, minha curadora, minha própria enfermeira, minha própria babá, minha própria advogada, minha bombeira, policial, heroína  e salva-vidas; meu próprio oráculo; motorista, guia e advinha; minha própria terapeuta, a que sempre soube me fazer rir, chorar, parar e acalmar.

Eu em mim, na minha casa de toras, entre as folhas da mata virgem, sustentando só, o fogo de meu coração.


domingo, 21 de agosto de 2016

O Prometido

        A imagem na fotografia tinha todos os elementos de um conforto acalentador e ideais outrora sonhados: em primeiro plano, uma refeição, perfeitamente alinhada, como os pratos que eu gostava de preparar, tomates cereja cortados de comprido em quatro, duas fatias de pão, três pastas diferentes, cada uma de uma cor, pratos de porcelana branca com pequenas flores azuis, pintadas a mão; numa cadeira ao lado, um confortável sweter pendurado; em cima da mesa, um pouco atrás dos pratos em primeiro plano, um MacBook (Deus sabe o quanto eu desejei um MacBook no fim de 2014, tempos idos que acabou por mostrar que a necessidade na realidade, nem era tão necessária assim) com uma figurinha, dessas de álbum criança, colada no teclado; no centro da mesa, um aquário com flores; ao fundo, uma bicicleta... ah bicicleta, como eu sentia falta de ir com a minha bicicleta até a floresta e ficar ali um tempo, observando a lagoa e as montanhas ao fundo.
Aquela imagem vinha de algum lugar em Praga, uma casa, um apartamento, um flat, quiçá. Só sei que o fato de ser em Praga parecia ser mais um aviso sincrônico, uma mensagem do cosmos que mais uma vez eu apenas tentava decifrar. Icônico, pois, aquela foto me fez voltar a escrever depois de um bom tempo, não que eu não tenha escrito nada nesse meio tempo, aliás, escrevi e muito, páginas e mais páginas de produção intelectual, mas nada que viesse com alguma alma junto. Aquela foto despertara o meu ser novamente para a escrita. Ironicamente uma foto tirada em Praga, a cidade do Sr. Kundera, o senhor que me fez querer muito escrever muito, escrever de alma, escrever a alma, não só escrever, mas fazê-lo de um jeito grandioso, revelador, epifânico, profundo, intenso. Kundera me fez querer conhecer Praga, fugir às pressas de Paris e evitar franceses.
            Aquela foto (tirada em uma sala de Praga) que me retornara a escrita da alma, foi feita por um homem, homem este que chamarei de O Prometido, poderia ser O Guerreiro Prometido, afinal, a história toda conta de um Guerreiro, que além de prometido, era também guardião, mas para esse momento fiquemos só com o Prometido, pois é disso que esta parte da história se trata: da Promessa.
            Como olhar aquela foto e milhares de pensamentos não correrem pela mente de pés nus? Ele, que estava tão longe; ele que, como eu, ajeitava a comida no prato minuciosamente e as servia em louças provençais com florzinhas azuis; ele que tinha um sweter com ar de aconchego; ele que andava de bicicleta pelas ruas de Praga e que certamente percorria praças e cafés por onde o Sr. Kundera andou; ele que tinha um Macbook com adesivos infantis; ele que colocava ramalhetes de flores em vidros de aquário; ele era O Prometido.
            Lembro-me bem do dia em que soube, ou melhor, confirmei o já sabido. Em realidade foi numa noite, meio de madrugada, após um ritual de curas da memória da fala: a revelação. A maga sacerdotisa da cabeleira farta em caracóis, dourados como os campos de trigo, se pos diante do fogo e me olhando profundamente nos olhos, apontando seu fino dedo de feiticeira me disse: “Tu, Bruxa, tu és a mulher do Sapo” . Meu cachimbo de juremeira titubeou nos lábios, minha face se corou e o pensamento voou: “Como ela sabia dos interesses do Sapo por mim? E dos meus por ele? E das mensagens trocadas, dos sonhos sonhados? Sabia ela de tudo em sua clara visão oracular? E se não fosse, ainda que parecesse ser que fosse e ainda que ela tivesse visto e dito que seria assim?” A mente foi longe e o coração disparava de medo pela dúvida e de euforia pela confirmação. O Sapo encarnado homem era O Prometido da Bruxa.
            Por outro lado, de uma maneira que eu não sei explicar como, toda aquela situação me causava um desconforto, o desconforto que qualquer sentença peremptória tem sobre aquele que à recebe. Me sentia como uma jovem medieval, prometida pelo seu pai a um nobre estranho qualquer. Afinal, eu mal conhecia o Prometido (pelo menos não nesta vida). Estávamos trocando mensagens fazia pouco tempo e tudo que vinha dele, seja pelo mistério da distância, seja por sua magia xamânica me deixava absolutamente sensível. Ele era terra de incertezas, era a insegurança que pedia por confiança, era o medo que clamava por Amor, o enlamaçado pântano dos sapos que exige o mergulho nas sombras para o despertar na luz. E se eu... oh, eu deveria dizê-lo? O próprio fato de pensar na possibilidade já me deixava atemorizada... e se eu... E se eu me apaixona-se?
            Lembro-me do dia em que nos conhecemos, foi numa noite de magia... O fogo estava aceso e o círculo formado, os corações da tribo seriam lavado, eu guardava a porta Sul, porta das sagradas medicinas e dos animais de poder. Trabalhava no fogo quando senti uma presença muito familiar passando atrás de mim, me virei, assustei! Um par de olhos azuis, pacíficos, me miravam fixa e serenamente, sorriam. Eu sorri assustada e voltei-me imediatamente para o fogo: por que aqueles pensamentos passaram pela minha cabeça? Quem era aquele homem que provocara aquilo? Por que minha mente estava a julgá-lo incessantemente como se tivesse sido muito machucada por aquela pessoa, sendo que eu nunca o tinha visto? Projeções? Talvez... Mas os pensamentos não me abandonavam: Quantas mulheres ele teria? Quantas ele abandonara? Quais sofriam por ele? Me concentrava no fogo para servir, voltei-me ao trabalho, mas em um momento de distração a Força me encontrou e gritou em todo meu ser: “O Seu homem, é esse, bem atrás de ti”, com medo virei-me para ver quem era, claro que só podia ser ele, me assustei de novo e neguei, gritei com a Força: “Não, eu não quero!” Minha alma chorou, chorou de dor, como se previsse, ou recordasse desilusões! 
            Ele cantou no fogo, ícaro, voz alada... minha mente buscava toda forma de defeitos naquele homem, “ele é baixinho”, “atarracado, parece um sapo”, “por que canta na língua do colonizador-invasor-opressor?”, “aliás, que beleza mais estereotipada aos nórdicos-colonizadores-invasores-opressores tem esse homem”, “quantos filhos será que ele tem? Espalhados por quantos cantos?”, “terá ele mulher? Ou mulheres? Onde?”, “de quantas ele já despedaçou o coração com a sua cara bonita e o véu da voz doce de poemas e encantos?”, “este homem vai me fazer sofrer!”. Naveguei nos pensamentos, a velha feiticeira lavou o seu coração e na porta do meu ele bateu.
Ele me abraçou, eu senti... neguei de novo, afastei, demorei, temi!

Entre o bater, abrir e atravessar a porta tem um tempo... e nesse tempo em que esperamos imagino por quantos cantos de Praga aqueles olhos de promessa se perdem em devaneios, do alto de sua bicicleta azul?

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Às minhas famílias

Já faz um tempo que eu não escrevo. Digo, escrevo de escrever assim, escrita livre de qualquer padronização, pressupostos e teorias. Escrita livre para o coração voar...
            É que além de ter faltado a vontade (devido a escrita nos últimos dois anos e meio ter se tornado uma ardida obrigação) anda sobrando-me vida. E quando a gente está assim, vivendo demais, o que não dá mesmo é querência de se contar em letras assim, justapostas: o vivido. O que se quer mesmo é continuar vivendo. E pra saciar o desejo de compartilhar com os bem amados: cantar, dançar, pintar, rezar e festar esse tantão de vida bem vivida.
            Então, nesse último ano o que eu tenho mais feito é isso; nunca compus tanto, fiz tanta comida boa e compartilhei tantos bons momentos com pessoas tão, tão, tão amadas. Alguns, mesmo distantes, posso dizer que aproveitamos ao máximo o tempo (ainda que curto) que passamos juntos. Às vezes bate uma saudade sim, mas aí eu faço e me aprochegar juntinho no perto de até onde a tecnologia nos permite. 
            E pra minha família da alma, que alimenta meu fogo e me faz sentir tão bem, acolhida, protegida e amada, saibam que esse ninho de corações cristalinos faz do meu um farol a refletir a luz do seus para o mundo em gemas coloridas de preciosa luminescência. 

            

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