quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Ode ao Artista

Para Elijah, o bardo da Sibéria


Como ousas dizer que tens esse medo, de não acontecer?! Tenho uma má notícia para ti, amado de tantos tempos, você acontece há pelo menos 30 anos só nesta existência. Você respira: você acontece;  você abre esses seus olhinhos devoradores de almas:  você acontece;  você faz uma merda:  você acontece; você ama: você acontece; você escreve uma poesia, prosa, cantiga, canção, carta, cardápio, cartão, crônica, conto, artigo ou coluna, bilhete, tweet: você acontece; até mesmo se você não fizer nada, se buuum, amanhã caiu no chão e bateu as botas:  você ESTÁ ACONTECENDO. Você está aí, acontecendo há muito tempo, desde o seu primeiro grito ao ver o sol pelo portal das pernas de sua mãe; está acontecendo em cada um dos seus encontros, físicos, astrais, imateriais... e até mesmo, os virtuais; tá acontecendo quando come e quando caga; e até nas horas de abulia, de cabeça na ventana, sem força criativa, testa apoiada nos braços, apoiados na janela, apoiada sobre a casa, apoiada sobre a Terra, cabelo bagunçado entre o suor e a quase lágrima que desistiu de cair, já que não era nada... até nessas horas, onde mesmo o pensar tem preguiça de existir, você está acontecendo. E enquanto você está aí, acontecendo de tantas maneiras e para tantas gentes, achando que não está acontecendo e que nada também acontece, a sua vida acontece da melhor maneira que poderia ao passar pelo seu corpo esguio e seus olhos de mistério (tanto mistério que és mistério até pra ti).
Sabe Elijah, não existe divagação, teoria, astrologia, previsão ou simpatia mais potente que o mergulho profundo na presença da Existência, estar presente é a face mais plena da criação. Plenamente presente e os sentidos aguçados, não tem meio platô que desmorone sobre os pés das suas criações contiguas ao seu acontecimento. Falando em platô, olhe para os seus pés e toda a estrutura que construístes abaixo deles: o conhecimento que adquiristes, os saberes de seus avós, seus livros, seus discos, sua voz, suas mãos, sua pena, as pessoas que agregastes ao seu redor, os que em algum momento aconteceram com você, os muitos para quem você aconteceu e está acontecendo,  e entre eles... Eu.
Te digo isto, pois quando eu te vejo,  eu vejo esperança... para tudo que é certo, para todo perdão, para toda honra à toda relação, aquela velha honra de velho bruxo xamã. E o único milagre que falta para você acontecer é você acontecer para você. E... se você precisar de ajuda... eu seguro o espelho  para ti. Porque eu até posso  tentar salvar sua alma, mas definitivamente,  a única pessoa capaz de transformá-la é tu mesmo.


domingo, 7 de outubro de 2018

E o Tempo Levou

E o tempo levou: os amigos, os queridos, os amores... e principalmente a compreensão.
E eu fiquei só! Até os bichos adormeceram e as plantas se encolheram no sereno da noite vazia.
E tudo o que eu precisava... era alguém com quem eu pudesse me permitir ser fraca!

P.S.: Para acompanhar essa nuvem de lágrimas que paira sobre nossas existências, a música mais triste do Mundo!


segunda-feira, 30 de julho de 2018

Jacques

Já que tá tudo uma merda
E já que tá tudo uma merda há algum tempo
E já que a merda parece que vai continuar acontecendo por um tempo
Acho que vou curtir uma fossa, porque... vai que uma hora passa, né?!
Melhor aproveitar...


quarta-feira, 17 de maio de 2017

O Coração do Solitário

Esses dias estava pensando nos meus sofrimentos amorosos, talvez por não ter mais muitas outras coisas para com as quais sofrer (sem menosprezar o meu modo de existência, mas para trazer a clareza da consciência dos fatos) as minhas relações amorosas sempre foram motivo dos meus mais profundos pesares. Não porque não deram certo, mas por não ter dado nem o minimamente certo para poder usar ao menos o clássico clichê “foi bom enquanto durou” ou ainda “teve seus bons e maus momentos”... Não, sendo bem sincera, minhas relações afetivas só funcionaram bem em um lugar: minha mente; até porque uma parte considerável delas (tive mais paixões platônicas do que as efetivadas) nem sequer chegaram a se concretizar em algum outro lugar além da minha cabeça. 
E hoje me peguei mais uma vez chorando por causa delas, ou melhor, pela ausência delas. É... sempre foi um tanto quanto difícil admitir que me sinto sozinha (fui educada para ser bem independente), ou melhor, que me sinto mal por estar sozinha, não digo sozinha de relações afetivas, tenho vários amigos confiáveis e leais por hoje em Floripa, finalmente, afinal, passei meu primeiro ano nessa ilha totalmente desolada por não firmar nenhuma amizade contundente, por consequência adquiri um péssimo hábito: me empantuchar de doces, e olha que nunca fui muito fã dos doces, e agora, que me sinto suficientemente bem amada pelos queridos amigos, a ponto de estar há mais de uma semana sem doces nem glúten, me bate essa, de estar mal por estar solitária no sentido conjugal da coisa.
Me chegou de novo a velha depressiva, que maldiz os ocorridos e o suposto “azar” do como diria Dominguinhos “Quem eu quero não me quer mas quem me quer também não quero”; só que diferentemente das outras, dessa vez pude observar e ver bem o que se passava, afinal, estar completamente só há mais de um ano teria de servir para pelo menos eu entender o que se passa quando o incomodo por viver só, bate. Olhei bem e vi... vi bem de pertinho o que me afligia e me deparei logo de cara com o clichê de que quando se está bem contigo a melhor companhia aparece em melhor hora... Oi?! Quem disse isso?! Alguém que acha que todas as pessoas no mundo contemporâneo são auto-depressiativas, com baixa auto-estima, prestes a se jogarem da ponte na primeira chamada de nova novela das seis?! Que me desculpem os consumidores de auto-ajuda, mas tem coisa falha aí. Não sigo esse padrão, sou bem arrogante, não me acho, me tenho certeza e guardo uma profunda confiança nas minhas qualidades, não apenas me amo, como sou profundamente encantada pelo meu ser (tentando entender aquele que disse que para ser amado é preciso se amar primeiro, mas véi... eu me amo por demais!!!) e nem por isso me colocava numa posição superior aos meus pares, sempre os admirava profundamente pelas suas qualidades e não entendia porque não havia essa recíproca de atenção, admiração e cuidado. Por que? Afinal “O Segredo” não era só vibrar e mentalizar que o Universo se encarregaria de colocar aquilo que estava na sua vibração na ponta do seu nariz?!

Bem, passei umas horinhas elucubrando esses fatos, choramingando e esconjurando todos os Best Sellers de auto-ajuda e depois de xingar muito os deterministas do Think Positive que esqueceram das exceções, de maldizer o destino e principalmente atacar minha incapacidade de fazer algo efetivo a respeito desse suposto “fracasso emocional”, parei e observei: “o que mais me incomodava nesses idos relacionamentos, ou até mesmo nos imaginários relacionamentos?”, definitivamente um deles era o fato deles não terem “durado o tempo bastante para se tornarem inesquecíveis” ou simplesmente nem terem chegado a se concretizar de fato, ou ainda e o pior e mais doloroso eu nunca ter me sentido realmente amada. A sensação que mais me corria o peito era a de me doar total e por completo a pessoas que me viam como alguém para satisfazer desejos passageiros, ou para preencher algo que faltava, ou simplesmente para se sentirem amados, mas nunca para compartilhar Amor, isso me deixava o vazio, a vontade de chorar e pior ainda era quando eu me lembrava daqueles que nem ao menos queriam receber aquele amor. Não sei ao certo por quanto tempo fiquei a lamentar os fatos, mas sei que parou no momento exato em que percebi o bem que todas as pessoas pelas quais eu me encantei e me encanto fazem por mim; porque eu percebi que muito do que me tornei hoje, que acho bom, que admiro, foi por reconhecer o lado bom e as qualidades dessas pessoas, por admirá-las, acabei por incorporar um tanto dessa boniteza que elas tinham pra elas em minha vida, e por fim, percebi, que o melhor que elas fizeram foi serem espelhos, para que eu pudesse enxergar o belo e o melhor que poderia sair de dentro de mim.


Divagações Afetivas

Olá, nessas próximas linhas eu vou escrever sobre Amor, não sobre amor, ou AMOR, é sobre o Amor mesmo, esse com o “A” maiúsculo alegorizante, ou seja, o Amor dos poetas, esse amor que se confunde com êxtase, com paixão, que dói, dá embrulho no estômago e que faz você pensar que é bipolar, depressivo, tem transtorno bipolar ou é esquizofrênico. Esse amorzinho clichê mesmo, que passa nas comédias românticas, nas novelas, nas trovas de amor e de amigo, nos romances de Castro Alves, nos contos de Vinícius de Moraes, nas canções do Clube da Esquina, nos filmes de drama e de comédia romântica.
            Então “mon ami”, AVISO IMPORTANTE, se você está nessa de negação das influências que a cultura pequeno-burguesa-judaico-cristã-ocidental possa ter na sua vida em termos de Amor, melhor nem começar a ler... Se você tá nessa de amor livre, de desapego, de não criar expectativas, de super empoderamento de si, de curtir o momento, de precisar estar com alguém sempre a todo momento (ou quiçá alguéns?!), de desconstruir padrões socialmente impostos de “amor”, de achar que nova MPB (com arranjo de banjo) é uma merda, que não aguenta mais sessão da tarde e que vinho com lareira em Urubici ao som de Billie Hollyday é piegas demais, queride, melhor parar por aqui, porque o que eu vou falar é justamente sobre esse “monstro” criado pela sociedade burguesa, o tão temido “amor romântico”, haaa... e não pense que será em tom de crítica, mas... de profunda empatia e compreensão por ele, até porque, habitantes desse lado do meridiano de Greenwich, eu, como vocês também fui “construída nessas bases”.
            Nesses últimos tempos tenho sido questionada (e muito) sobre não estar em uma relação há tempos, aliás, por não estar em nenhum tipo de relação. As pessoas me perguntam que como, em um lugar com tantas possibilidades de encontros, com tanta gente bonita, com tantas propostas, tanto flerte, tanta gente interessante interessada, tanto de tudo dentro desta esfera eu optei por estar... digamos: celibatária.
            Não, não é falta de libido; também não é por não desenvolver uma relação empática de amor (fraterno) pelas pessoas interessantes interessadas; muito menos por não querer estar com alguém. Eu quero estar com alguém, mas o grande problema é que faço a linha romântica devotada incorrigível, o bom é que, pelo menos agora, saber disso e ser assim não me faz mais sofrer.
            Estar solteira e sozinha por opção tem lá suas razões e talvez isso ajude a entender a natureza dos românticos, ou das pessoas que não necessariamente acreditem em alma gêmea, mas que querem estar por completo com alguém (e isso inclui devotar sua arte e seu modo de criação também e principalmente com aquele com quem se está junto), românticos amam profundamente as formas de existência e por conseguinte querem partilhar esse brilho que enxerga em todas as coisas com o ser amado e logo, o romântico também gostaria que esse encantamento fosse não só visto, mas também sentido, a grande busca do romântico por consequência é partilhar as suas buscas, dividir seus encantamentos com aquele que também se encante. A questão é que o romântico busca isso no outro também e na grande maioria das vezes ele não encontra e então, por consequência, ele se frustra. O romântico consegue superar essa forma de ação auto-destrutiva quando ele aceita a sua natureza e ao mesmo tempo ele aceita o tempo da espera, da chegada, quando o ato de auto-indulgência do romântico se converte em um ato de fé.

            Assim, ser romântico pode também ser leve, e (por quê não?) possível nesses tempos “líquidos”, se transformarmos nossos desesperos e quereres em aceitação (aceitação de que pode doer, criar expectativas, apegos e frustrações; mas que isso também vai passar) e a nossa vontade em fé, amando muito aquilo que se é.


Refúgio

Se eu pudesse vos dizer algo, seria que eu “com-paixono” das vossas dores. Não sei a profundidade delas, não sei nem precisar a exatidão delas, mas com-paixão em meu coração por vós, eu sinto e sei com todo o meu amor, o que eu queria e o que não queria.
Eu não quero, nem se quer pensar, que eu poderia nunca mais ver os meus pais, não porque eles estão gravemente doentes, ou porque as intercorrências do destino pode determinar qualquer coisa inimaginável para o amanhã, mas simplesmente porque tudo o que está ao redor deles, relacionado à eles e consequentemente à todas as minhas origens estão sendo completamente pulverizadas. Todos os meus vestígios históricos, culturais, sociais e ancestrais estão se apagando por completo. Eu não tenho a opção de, num esforço contemporâneo “new age”, “neo hippie”, daquele que se sente consumido pelo consumo, “desapegar”, já que tudo aquilo que constitui enquanto mundo e vida, está despegando de mim, não porque eu queira, não porque o mundo queira, mas porque alguns, creem que tem algo que eles queiram, e se eles querem eles podem controlar o êxito de suas vontades, nem que elas destruam aqueles que só queriam, apenas estar.
Eu quero fazer trilhas pelas florestas colombianas; nadar e navegar pelas águas do Rio Congo e jogar seus diamantes como pedras de brincar; eu quero recitar poesias em um sarau na Apameia; escalar e caminhar o Himalaia por toda a sua extensão; poder dizer que hoje, por mais um dia, fui o primeiro a ver o Sol se por no Mediterrâneo; eu quero rezar ao redor fogo com a minha lá na aldeia, no meio da mata, sabendo que amanhã vai ter peixe e vai ter milho, pra festejar; quero lágrimas de alegria por mais um novo dia e de dor, só se for por dedão ralado ou outro amor frustrado. Mas, se nada disso, mais eu puder ter, que pelo menos, depois desse tornado, eu possa pelo menos ter, a terra em minhas mãos, lavada e purificada, na certeza do coração de que todos que pisam nela, são profunda e verdadeiramente, meus irmãos!


“Para todos aqueles que, sem nenhuma vontade, são obrigados a deixar suas terras”


terça-feira, 16 de maio de 2017

Saudades

Sinto saudades suas
Não digo que “miss you”
Nem que tu “me manqué”
Só a alma da letra lusitana
Pra traduzir em cordas de lira
Um sentimento que vaza pelas palavras
E tão pouco clama pela presença

Na latência da falta
Saudades é sentido de existência
Sente sem apelos e agrega
Em órbita de emoções
O que vem no fluir dos ventos
Não tem tempo
Escolhe seu próprio momento
No fluir dos sentimentos
Se manifesta em passado, futuro e presente

Saudade não se importa com a crença
Das almas, das relações, dos ímpetos,
Das validações coloridas em bandeirolas nos estádios
Não nos traz a sentença de pertença
Não vira bicho
Não pede, não ruge, não uiva
Não canta
Nem sequer dança
Não bate tambor pro fogo

Saudade repousa serena em nosso peito

Pois é o próprio pulsar do fogo de nossos corações


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